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Sérgio Rodrigues, um criador de tendências
por Fernanda Peruzzo
Ele se autodenomina artista plástico. As enciclopédias creditam a ele a paternidade do móvel brasileiro contemporâneo. Só que nem uma nem outra definição reflete o carioca Sérgio Rodrigues. Pelo menos não a pessoa que encontro na noite fria e chuvosa da nossa entrevista, confortavelmente esparramada na sua poltrona Mole, alheia a todo o movimento de fotógrafos e arquitetos-tietes presentes no coquetel de inauguração de seu showroom em Curitiba. Essa pessoa que me recebe com cordialidade, apesar do evidente enfado, imediatamente desperta minha curiosidade. Após duas frases, percebo que esse Sérgio não é como o da foto impressa em tamanho gigante que decora a parede à nossa frente. Esse Sérgio real sente orgulho de sua obra, sim, mas de maneira simples. É mesmo genial e também um bonachão. E tem aquele olhar perdido, um tanto triste, do órfão que perdeu o jovem e talentoso pai aos três anos de idade e cuja figura masculina só conheceu por meio das descrições de seu tio Nelson Rodrigues. Descubro porque ele é mito e fico encantada. Durante cerca de trinta minutos, monopolizo-o. E escuto-o falar sobre estilo, madeira e design.
Você é arquiteto, mas conquistou fama pelos móveis. Afinal, a paixão pela arquitetura que o conduziu à faculdade ou foi o desejo de criar móveis?
A arquitetura, sem dúvida. Para mim, ela é a primeira e a maior demonstração de arte. O móvel é complemento da arquitetura. Mas com grande importância. Sempre digo que uma obra arquitetônica sem mobiliário é escultura. Sem elementos, a construção fica sem especificação dos seus espaços e perde o sentido.
Você se dedicou muito a essa ocupação dos espaços. E até recebeu o título de pai do design brasileiro. Como é a sua relação com essa alcunha?
Olha lá (aponta para um banner com sua foto e esse epíteto). Não fui eu quem criou essa definição. Esse título é um exagero! Quem fez as primeiras manifestações de design no Brasil foi o Tenreiro (Joaquim), lá pelos anos 40. Ele que começou a buscar novas formas e uma nova identidade para o móvel feito aqui.
Mas o seu estilo é que se tornou marcante...
Essa palavra é complicada. Houve um período na década de 60 em que as pessoas diziam estilo Sérgio Rodrigues para denominar móveis que não eram cópias dos meus, mas derivados do que eu fazia. Eram peças com características minhas. Eu acho que estilo é a repetição de uma determinada tendência. O criador faz a tendência. E aquele arquiteto que depende das tendências dos outros não é nada. Se parece com a costureira que olha um vestido da fulana de tal numa revista e faz igual. Isso faz dela uma grande artesã, mas não uma criadora.
Seus móveis é que trouxeram a novidade para o design brasileiro. De que fonte você tirou suas referências?
As pessoas sempre me perguntam isso... Eu sou cliente de mim mesmo. Eu faço coisas para mim, para me satisfazer. Então eu busco referências no que eu quero fazer para mim mesmo.
E como é esse Sérgio Rodrigues criador?
Sou o tipo de pessoa que resolve praticamente tudo na cabeça. Quando eu desenvolvo algum projeto, o resultado fica muito próximo do que eu imaginei fazer. É claro que há peças que desenvolvi na década de 60 e que ainda não foram colocadas à venda porque acho que não ficaram bem resolvidas.
Nos países da Europa e nos Estados Unidos, o design está inserido nos museus. O design é arte, portanto?
A arte é feita para emocionar. Ela é puramente estética. Design é um objeto de arte com uma parte funcional. Não é apenas estética. Ele tem uma função específica. Ele é uma arte de utilidade. Ela é usável.
Sua matéria-prima é a madeira. Por que essa preferência?
Desde pequeninho senti cheiro de madeira, cheiro da cola, da mesa de marceneiro. Essas sensações me impressionaram e eu senti que com a madeira se pode fazer tudo. Mas, eu não trabalho exclusivamente com ela. Gosto de misturar a madeira com materiais que a destaquem, como o aço, o alumínio...
A ecologia não está transformando a madeira num material controverso?
Acredito que não. Existe muita madeira no mundo! O que é importante é a utilização correta da madeira, sendo ela certificada, de reflorestamento. E tem a madeira de demolição, de móveis antigos, que já deram o que tinham que dar e mesmo assim ainda podem ser aproveitadas para criar algo novo.
Sua obra-prima é a poltrona Mole. Ela colocou seu nome no cenário mundial. Isso trouxe reconhecimento?
O meu móvel ainda não é aceito aqui no Brasil como é lá fora. Aqui, você vê uma mostra como a Casa Cor. Em dezenas de ambientes você vai encontrar apenas um Sérgio Rodrigues. Os arquitetos preferem usar peças da Bauhaus, por exemplo, que são mesmo maravilhosas, mas essa não é a discussão...
Entrevista excelente. Importante o que ele fala da arte bela no móvel; o belo aderente.
SENSACIONAL!
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